—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete annos.
—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom clerigo.
—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.
—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore veneranda.
—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»
—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro sitio, dize.
—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás Machados.
—Pois manda. Depois não me chames ermitão...
D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia, cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.
A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era contraria.