A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo votado ao romance tal qual o architectára Garrett no Arco de Sant’Anna e principalmente na historia da Joanninha das Viagens, póde explicar se ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria seguida pelo auctor da Viagem extatica.
Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o romancismo é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente e moente para o velho absolutista.
D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.
No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios. Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre balsamo: era o Eurico, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau, indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.
Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?
Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]
A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao Bom Jesus, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir. D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente transferir o passeio, e foi.
Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada; das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?
Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o coração, sem que elle désse por isso.
Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.