Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez aberto no momento em que mais era preciso.
Eduardo Valladares folheava o Eurico, e os seus olhos deletreavam estas palavras:
«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha, ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»
—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!
E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.
Quem era?
XXIII
Era ella, Maria Luiza.