Eduardo Valladares, por um momento, julgára sonhar. Todavia o seu anjo adorado, entre o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel do impossivel, estava alli, soluçante, convulso, com os olhos merejados de lagrimas.
A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição da vespera, accedera ás instancias das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse acompanhar D. Maria d’Assumpção.
O moço seminarista, na violenta sobreexcitação que o agitava, deixara assomar aos labios a tempestade que lhe refervia na alma.
—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o que é o impossivel? Sabes o que é a distancia infinita que separa o reprobro da estrella polar que elle vê através das reixas do carcere? Sabes o que é morrer abafado na propria dôr, na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, que não tem um só momento de repouso, um só instante d’esquecimento? Pois bem, entre nós que nos amamos e que vivemos a mesma vida, vai abrir-se a voragem do impossivel, como se dissesse que vai sentar-se o espectro da morte, para o vêrmos a toda a hora em glacial immobilidade, sem querer condoer-se das nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico não coaria a morte aos nossos corações calcinados por metal candente! Que felicidade não sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza pedil-a? Pois se o coração trasborda de lagrimas como o oceano na tormenta, pois se a alma foge de si mesma amedrontada, como do espectaculo sombrio d’um tumulo aberto, porque não hade perdoar o Deus de misericordia a quem fica prostrado na via dolorosa exclamando: Senhor! os meus olhos cegaram de chorar; illuminae em troca a minha alma com o resplendor das vossas eternas auroras?! Não sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado o coração de supremas angustias, elevava o seu espirito attribulado ao Deus das alturas, cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, meu Deus, porque me desamparastes?» E não havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, da porta que se abre sobre nós dando passagem aos fulgores inextinguiveis da eternidade?
Maria Luiza, pendida sobre o hombro de Eduardo Valladares, orvalhava-lhe as faces de lagrimas abrasadoras.
Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos da sua alma, envenenando-a com o trago das lagrimas reprimidas.
—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te enche os olhos de pranto! Tremo da justiça dos Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito de te lembrar que tambem és desgraçada? Como ouso eu arrancar as flores da tua esperança, para calcal-as aos pés, sem me lembrar de que estou calcando com ellas o teu amantissimo coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade? Não é certo que tens no thesouro da tua alma a esperança que me offereces e queres repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, perdoa-me o que ha de injustiça n’estas palavras. Se a esperança ou se Deus, que tudo vem a ser o mesmo, te houvesse desamparado, não ousarias insinuar-me nova fé com receio de que eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel, sob os teus hymnos de mentirosa crença... Tu esperas, não é verdade? Deus, que formou de essencia divina as almas dos anjos como tu, não podia roubar-lhes a esperança, condemnando-as ao desespêro dos réprobos... Não chores...
—Não choro. Promette tu dominar a exaltação do teu espirito, que eu prometto não provocal-a de novo com as minhas lagrimas. Chorar eu! Passou acaso no nosso coração o sôpro devastador da descrença? Só os que não esperam, os que não crêem, é que choram, por que esses devem ser muito desgraçados, pois não devem?
E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, como se Maria Luiza nem sequer soubesse que estava chorando e desvendando os dolorosos segredos da sua alma.
—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente denunciando com as tuas lagrimas que tambem és desgraçada, porque não esperas, porque não crês...