—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que choro e não sinto as lagrimas!...
—É que a tua alma verga n’este momento ao peso d’um presentimento que a domina, e que ella está revelando sem que tu mesma tenhas consciencia da propria existencia. Ah! como nós somos ambos infelizes, meu amor. Bem m’o dizia o coração, bem m’o disse ainda ha pouco, antes d’abrir este livro, n’um momento que não sei se foi de sonho se de meditação. Meditação, não; não foi. Eu estava quasi adormecido... Meditação, não. Queres que te conte o meu sonho, como o estou recordando n’este instante?
—Oh! conta, conta...
—Um camponez, que tinha vivido expatriado em longes terras, privado dos carinhos da esposa, saudoso dos filhos que deixara no berço, do torrão que o vira nascer, da cabana onde amara e vivera, das serras da sua patria, de tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda do tugurio querido, e a todas as horas recordado, após os lacerantes soffrimentos d’um longo exilio. Quando vinha transpondo a serra do tôpo da qual se avistava a sua cabana, coberta de colmos como a tinha deixado, desciam do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz elle caminhava, mais o arvoredo se perdia n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam ao longe as casas d’aldeia disseminadas na encosta; a sua tambem. Áquella hora devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas creanças o pão da ceia amassado nas lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro, vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. A sua choupana ficava na vertente fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um rio, largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado pelas chuvas torrencias do inverno. Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro ter amarrado a barca do outro lado. «Depressa!» dizia o caminheiro a si mesmo. E não corria, voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. Brilhou-lhe nos olhos um clarão de desespero. A barca da passagem estava decerto amarrada a um salgueiro da outra margem, e já o barqueiro devia ir em caminho do seu palheiro que ficava ao centro da povoação. Afflicto, desesperado, chamou, gritou.
O sussurro da corrente impetuosa abafava a sua voz, tanto mais debil, quanto maior era a commoção. Depois...
—Depois?
—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira o tecto do seu lar, e uma voz interior lhe estava dizendo que no coração de sua pobre mulher passava, n’aquelle instante, o presentimento de que nunca mais o tornaria a vêr. Como ella havia de reprimir a sua dôr, para que as pobres creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: «Virá hoje, virá?» Que alegria, que felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar para dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; eil-o aqui está». E a escuridão da noite era cada vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha um não sei que de lugubre que punha medo. O fumo branco das casas d’aldeia foi rareando a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna ondulante que sahia do seu tecto. Acabava a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos os pequenos, deitava-se a mãe para desvellar as horas da noite em mil tumultuosos pensamentos. E elle separado de tudo isto, dos seus filhos, da sua mulher, do seu lar, por uma barreira que não podia transpôr e que se não abria para lhe dar passagem, como as aguas do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem os seus gritos, por mais impias que fossem as suas blasphemias! Aqui tens o impossivel, Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, este abrasar da alma em lavas incandescentes. Um genio mau desenhou decerto este quadro d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse o duplo martyrio de vêr e sentir, deixando ao meu espirito, meio adormecido, o trabalho de, quando despertasse, procurar a relação que para logo denuncía que este desespero é o seu proprio desespero, que este inferno é o seu mesmo inferno.
Maria Luiza soltou um grito d’angustia; Eduardo Valladares ficou extremamente prostrado d’aquella dolorosa excitação.
—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a cabeça febril mal amparada nos braços tremulos.
—Meu Deus! repetia elle em brando echo. Não fujas de mim, doce amor, e pede ao teu Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes desvarios d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o Senhor de misericordia, me perdoará tambem. Não fugas de mim como se foge do precito. Desde que minha mãe infiltrou na minha alma o balsamo sacratissimo das doces orações da infancia, conheço e amo Deus. Depois, desde que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, sempre o invoco em horas de desconfôrto e afflicção. Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os que choram.