XXIV
Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente esperava os óbolos da caridade para repartil-os pelos pobres, no numero dos quaes devia incluir-se a cega designada por D. Maria d’Assumpção.
Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, de procedencia anonyma, duas cartas contendo dinheiro destinado a enxugar por alguns dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos rasgou o primeiro involucro com intima satisfação, que no doce fulgor dos olhos se estava manifestando. O papel que continha a moeda consagrada á beneficencia, trazia esta restricção:—Para uma viuva. Aberto o segundo involtorio, que encerrava um soberano inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—Um cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, pede que seja entregue a outro cego, mais infeliz do que elle.
Estas palavras commoveram a lagrimas o carmelita, que relanceou ao seu Christo de marfim um olhar afogado em pranto, murmurando ao mesmo tempo:
—Abençoado seja o nome do Senhor, que por tal modo e com tamanhos dons abastece a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço me ensine o trilho por onde possa ir direito á mais necessitada cegueira, e á mais desamparada viuvez.
Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo tempo ficou a orar.
Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo de dois dias de trabalhosas investigações, depositou nas mãos d’um cego e d’uma viuva, que mais carecidos lhe pareceram, o dinheiro da caridade.
Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, era noite cerrada. Acudiu a recebel-o, com a sua habitual expressão de estima e reconhecimento, uma velhinha que lhe cosinhava a frugal collação e que, se não fôra o amparo de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco depois de cahir varado por um pelouro nas linhas do Porto o filho que lhe era esteio.
O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa como sempre, e apostrophou com semblante prazenteiro: