Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem convidadas para a valsa que redemoinha na sala.

Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura de Virginia; o Simão Botelho, do Amor de perdição, do nosso Alexandre Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos Contos ao luar, de Cesar Machado, é uma creança.

Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que resumava a seiva dos dezeseis annos.

Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada.

A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se offerecer a todos os paladares.

Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação.

Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões. Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome.

Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui está a tua negrura, sombra!»

No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes.