Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a dobrez, e o lodo.
E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo; quedei-me a contemplal-o.
Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta?
Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral ao bafejo da viração matutina.
Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a Luiz XIV:
J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans.
Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor?
Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de homens que não teem de homens nem o coração.
O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para amadurecer.