É por isso que leio e releio, sem me cansar, o Raphael e a Graziella, de Lamartine; a Chave do enygma, de Castilho; o Livro d’Elisa, de João de Lemos; o Paulo e Virginia, de Saint-Pierre; os Idyllios da rua Plumet, dos Miseraveis; a Menina dos rouxinoes, das Viagens, de Garrett; o Thomas dos passarinhos, de Rodrigo Paganino, e muitos outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da vida a gloria de os escrever.

Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras de velludo.

Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes, devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis.

Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, contes de fées ou contes bleus, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia licenciosa, conte gras, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr assim, é verdadeiramente terreno e vulgar.

O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza.

A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me; bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.»

Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. Dissertation, ennui; sirva para alguma coisa o dito de Bastiat.


XXVI

Retrogrademos.