Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da outra menina sua irmã.
Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia desliza ao abysmo da eternidade...
A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na face pallida da filha.
João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias além d’um ligeiro abatimento.
Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e de pressa morria á flôr dos labios.
D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas.
Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se sentiu avergado ao peso da sua cruz.
No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto, que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e murmurou:
—Deve ser triste a legenda d’esta capella...