—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar.

—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do meu pedido.

—Que dizes?...

—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.

Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado.

Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha, que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico.

Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o certo é que vinha fallando.

—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia. Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos aos Quatro irmãos, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos Quatro irmãos?

—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo n’aquelle momento.