—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se que um parocho da freguezia proxima ao logar dos Quatro irmãos vivia em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes; e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado. Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado.
—É interessante... Não sabia a lenda...
—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar aos Quatro irmãos susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos. Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores!
D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto, sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram.
João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres:
—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!...
—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!... objectou D. Maria d’Assumpção.
João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado:
—Tem os que quer ter.
—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas, que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente.