«Aquelle que realmente merece os vossos applausos está entre nós. Eu não fiz mais que apresentar debaixo da fórma dramatica{19} um dos mais notaveis livros que se tem publicado n'este paiz. A esse escriptor já coroado dos applausos publicos peço eu agora a honra de permittir-me que o apresente n'este logar ao publico que o deseja vêr.»
A plateia levantou-se para applaudir o snr. Biester e o snr. Gomes Coelho, que se recusou a subir ao palco. Veio buscal-o á plateia o snr. Biester, e, mal appareceram ambos no palco, o enthusiasmo do publico chegou ao delirio. A todos commovia a modestia dos dois escriptores; um escondendo-se na plateia e furtando-se aos applausos, outro pretendendo que toda a gloria coubesse ao snr. Gomes Coelho.
Os actores que ainda estavam em scena abraçaram o snr. Gomes Coelho que profundamente commovido mal podia proferir uma palavra.
O correspondente de Lisboa dizia na sua carta para o Jornal do Porto no mesmo dia e mez de março de 1868:
O Porto teve dois triumphos em Lisboa nos ultimos dias—o da opera Arco de Sanct'Anna, do snr. Noronha, e o das Pupillas do senhor reitor, do snr. Gomes Coelho (romance transformado em drama pelo snr. Biester.)
Ambos estes filhos do Porto foram victoriados delirantemente, o primeiro no theatro de S. Carlos, e o segundo na Trindade.
O drama agradou, e o desempenho foi bom por parte dos actores Taborda, Izidoro, Queiroz, Emilia Adelaide e Rosa: pelos outros apenas supportavel.
Quanto ao merecimento do drama, consignemos de passagem que não satisfez a critica litteraria senão por ser um reflexo, ainda que pallido, do romance de Julio Diniz.
Pinheiro Chagas revelava-o em folhetim do Jornal do Commercio, poucos dias depois da primeira representação:
A luz do proscenio,—escrevia elle—digamol-o emfim, é uma luz mentirosa; a perspectiva do theatro tem condições especiaes. Ponham os frescos de Raphael recortados nos bastidores, e eu lhes juro que não produzem metade do effeito de quatro borrões espraiados na lona pelo snr. Procopio.