Em 6 de julho do mesmo anno, estando no Porto a companhia do theatro da Trindade, pôz em scena o drama Pupillas do senhor reitor. Copiemos ainda do{20} Jornal do Porto o que no dia seguinte escrevia a tal respeito:
É muito difficil adaptar bem á scena o entrecho d'um romance. Para que qualquer obra litteraria se considere absolutamente boa é preciso que os factos que n'ella se expressam, debaixo de nenhuma outra fórma se manifestem melhor. Um bom drama feito com o mesmo assumpto que inspirou um romance, seria a condemnação d'este, e equivaleria a dizer o dramaturgo ao romancista: «As tuas trabalhadas descripções e a esmerada pintura dos teus typos estavam de mais nas trezentas e sessenta paginas do teu livro: aqui tens os mesmos effeitos n'um só dialogo em tres actos.»
A razão de não ser mais perfeito o drama que vimos hontem consiste em ser muito bom o romance que lemos ha poucos mezes. A unica culpa de Ernesto Biester é Julio Diniz.
E mais abaixo:
A sala estava inteiramente cheia. Pela manhã já não apparecia um bilhete de plateia inferior. De tarde pedia-se libra e meia por um camarote de terceira ordem.
V
Já seria occasião de estudarmos a maneira do romancista. Todavia, attendendo a que Julio Diniz primeiro se revelou ao publico poeta que romancista, corre-nos obrigação, por amor da chronologia, de primeiro o avaliarmos, consoante nossa opinião, nos seus versos, que nas suas novellas.
A pagina 40 do terceiro volume (1860) da Grinalda apparece pela primeira vez o pseudonymo Julio Diniz rubricando uma poesia que se intitula A J... Quem fosse Julio Diniz não se sabia então; não o sabia o mesmo redactor da Grinalda, Nogueira Lima, que recebera os versos pelo correio.
Gomes Coelho, apesar de o conhecer pessoalmente, porque Nogueira Lima era tambem amigo dos seus mais{21} intimos amigos, os snrs. A. A. Soares de Passos, Custodio José de Passos, Augusto Luso, José Augusto da Silva e outros, não ousara, por excesso da sua peculiar modestia, impôr-se delicadamente como collaborador da Grinalda, procurando o redactor e proprietario, e entregando-lhe os seus versos. Não fizera assim. Enviara-lh'os cautelosamente e, por mais d'uma vez, escutara em silencio Nogueira Lima sobre o merecimento d'uma ou outra composição poetica á medida que pelo correio as ia recebendo com a rubrica Julio Diniz.
A inicial que serve de epigraphe á poesia publicada em 1860 na Grinalda envolve de certo um segredo intimo do poeta, e por conseguinte insondavel. Gomes Coelho morreu celibatario, viveu sempre na solidão amiga dos seus livros e, não obstante, em todos os seus versos, em todos os seus romances, modelava o typo da mulher por um formoso ideal de perfeições quasi divinas.