O que é certo é que na sua alma havia a tristeza temperada dos poetas que, como Lamartine, nascem para cantar e soffrer. As paixões revoltas de Byron e Espronceda não as conhecia elle. Era portanto o poeta da solidão, que vivia do seu ideal, longe do bulicio da sociedade, onde outros iam afinando a lyra pela excitação febril dos sentidos.

É justo que transcrevamos na sua integra os versos de que vimos fallando, não só por este destino mysterioso que elle lhes dava, como por serem os primeiros que sahiram publicados com o seu habitual pseudonymo:

A J...

Acredita que os anjos tambem soffrem
N'esta mansão de dores,
E não olhes o mundo lacrimoso,
Quando o vires despido de fulgores.

Mal sabe a rosa, ao vecejar lasciva
Em plena primavera,
Que é passageira a quadra, que apoz ella,
Se despovoa o prado e a morte a espera.{22}

O terreno, que pizas n'esta vida,
Occulta um precipicio;
O caminho, onde ao fim vemos a gloria,
Quantas vezes termina no supplicio!

Eu já vi, junto a um tumulo isolado,
Um grupo de crianças,
Dando as mãos e travando em chão de morte,
Com risos infantis, alegres danças.

Vi-os tambem sorrirem descuidados
Se piedoso viandante
Parava pensativo e, murmurando
Uma humilde oração, passava adiante.

Assim tambem sorris, se melancolico
Eu penso no porvir,
Quando uma sombra vem turbar-me a fronte,
Tu, como elles, contemplas-me a sorrir.

Mas olha, quer's saber a historia triste
D'esses tres innocentes,
Que, sobre as cinzas frias d'uma campa,
Se entregavam a jogos complacentes?

Á noite a mãe, beijando-os, estranhou-lhes
Da face a pallidez,
E um presagio sentiu ao alvor do dia...
Eram frios cadaver's todos tres.

É que os ares do tumulo dão morte
Em afago homicida,
N'esse ar infecto em que se extingue a chamma
Tambem arqueja e expira a luz da vida.

Teme pois tambem tu, candida virgem,
O ar que aqui respiras,
E não perguntes mais ao viandante,
Que pensamentos d'amargor lhe inspiras.

Transparece d'estes versos,—senão os primeiros, uns dos primeiros de Julio Diniz,—a luz pallida d'uma alma triste. Em todas as composições posteriores, que litterariamente valem muito mais, especialmente as ultimas, prevalecem as cadencias melancolicas, que fazem lembrar o Cahir das folhas de Millevoie e as Azas brancas de Garrett.

No quinto numero do mesmo volume veem novas{23} estrophes suas, que teem estreita relação com as que acima deixamos transcriptas. Intitulam-se Apparencias. Julio Diniz extranha o teimoso sorriso nos labios da pessoa a quem se dirige:

Sempre o riso em teus labios! N'essa fronte
Nem uma sombra apenas!
Nem uma nuvem só, lá no horizonte
A ameaçar-te com futuras penas?!

Presente-se uma alma de poeta em completo antagonismo com outra alma, que ou nasceu fadada para estranhas alegrias ou, menos sincera, sabia concentrar em si mesma o segredo das suas maguas.

Quem sabe! Quantas vezes é mentida
Dos labios a alegria?
Quantas vezes no peito comprimida
Nos devora latente uma agonia!

Ainda na collecção do mesmo anno vem uma terceira poesia de Julio Diniz, cujo assumpto é estranho ao das duas precedentes. Todavia o poeta, sempre delicado, compraz-se em cantar os primeiros estremecimentos d'um coração de mulher, e intitula o seu canto—O despertar da virgem.

No quarto volume (1862) da Grinalda sahiram duas poesias de Julio Diniz. Intitula-se a primeira—A noiva. É ainda o coração da mulher o assumpto,—da mulher que está sentindo alternadamente os jubilos e os sobresaltos do noivado. É, podemos dizel-o, um estudo psychologico escondido n'uma tradição da idade-media. A noiva está prompta, toucada, anciosa...