Os paes da noiva, poesia publicada no sexto volume da Grinalda, valem muito não só pela correcção metrica, que é irreprehensivel, como pelo thema, que é terno, mavioso, commovente. Tudo é festa em derredor da noiva. Só duas pessoas, os paes, teem lagrimas nos olhos. Quando a rapariga parte sob uma chuva de flores, recolhem-se os dous velhos para chorarem em segredo a sua profunda saudade. Está de lucto o lar; a velhice saudosa é peior do que a morte. Seis dias volvidos é tristemente verdadeiro o lucto. Os paes da noiva não poderam com o fardo de tamanhas tristezas. Succumbiram ambos.
Do mesmo volume quizera poder transcrever na sua integra a poesia—A esmola da pobre—que é uma delicadissima composição, em que duas creanças, uma rica e outra pobre, soccorrem uma velha mendiga, a rica dando-lhe esmola, a pobre beijando-lhe a mão...
No primeiro dos folhetins que em 1864 publicara no Jornal do Porto sob o titulo de Impressões do campo veem estes formosos versos que são, a meu vêr, um modelo de naturalidade e singeleza:{26}
O BOM REITOR
Sabem a historia triste
Do bom reitor?
Misero! toda a vida
Levou com dor.Fez quanto bem podia...
Mas... a final
Morre e na pobre campa
Nem um signal.Nem uma cruz ao menos
Se ergue do chão!
Geme-lhe só no tumulo
A viração.Vedes, alem... na relva...
Junto ao rosal
Flores que ha desfolhado
O vendaval?Cobrem-lhe a lousa humilde;
A creação
Paga-lhe assim a divida
De compaixão.Pobres, que amava tanto,
Nunca, ao passar,
Choram, curvando a fronte
Para rezar.Nunca, ao romper do dia,
O lavrador
Pára e lamenta a sorte
Do bom reitor.As criancinhas nuas,
Que estremeceu,
Já nem sequer se lembram
Do nome seu.No salgueiral visinho,
Ao pôr do sol,
Vai-lhe carpir saudades
O rouxinol.{27}Lagrimas... pobre campa!
Ai, não as tem.
Só da manhã o orvalho
Rocial-a vem.Da solitaria lua
A triste luz
Grava-lhe em vagas sombras
Estranha cruz.E elle repousa, dorme...
Vive no céo;
Dorme, esquecido e humilde
Como viveu.Ha n'esta vida amarga
Sortes assim.
Vive-se n'um martyrio,
Morre-se emfim...Sem que memoria fique
Para dizer
Ás gerações que passam
Nosso viver.Quem me escutar, se um dia
Ao prado for,
Ore pelo descanso
Do bom reitor.
Quem sabe se a inspiração d'estes versos, que se nos afiguram escriptos muito antes de serem publicados, foi ainda o germen de que desabrochou, recendente ao perfume das serras e colorido com as tintas mimosas das flores do campo, o romance Pupillas do senhor reitor? Cremos que sim. O grão que o semeador deixa cahir na leiva é na primavera flor, no outomno fructo, e no inverno riqueza.
Assim tambem a ideia, que o espirito recebeu um dia, póde florir ámanhã, fructificar depois, e opulentar para todo o sempre os celleiros onde se apascenta a intelligencia humana. Toda a primavera foi botão, e o mesmo sol, que ao meio-dia deslumbra, primeiro se mostrou dilucúlo...
No Almanach das senhoras para 1871 appareceu uma poesia de Julio Diniz epigraphada—A folha solta do ulmeiro—uma{28} formosa allegoria em que o coração da mulher, sedento de liberdade, é comparado á folha do ulmeiro que, anciosa de desprender-se do tronco, voa um dia, após as borboletas, impellida pelo ar, até que, depositando-se na terra, fica perdida no monturo...
Virgens, gravae na memoria
Este conto verdadeiro;
Que póde ser vossa a historia
Da folha solta do ulmeiro.
Outros versos escreveria Julio Diniz de que não obtivemos noticia; e alguns deixou elle ainda por corrigir, motivo por que não podem e não devem ser publicados.
Além d'estes, outros se encontram disseminados pelos seus romances, como a lenda da Cabreira e a Trigueira, nas Pupillas do senhor reitor; o Tabaco na Familia ingleza; e especialmente aquellas formosas quadras da Flor d'entre o gelo, uma das quaes, em que o poeta apostropha ás andorinhas,