Os romances de Julio Diniz resentem-se portanto da sua educação litteraria e, a meu vêr, compartilham das virtudes e dos defeitos do romance sociologico inglez. Reflectidamente accusa o professor Buchner os modernos romancistas da Inglaterra de descurarem um pouco a fórma por attenderem demasiadamente á materia; finalmente de uma exuberancia extrema de pormenores, e até de personagens, exuberancia esta que por mais d'uma vez abafa o centro de gravidade, o verdadeiro heroe do romance.

De resto não ha ahi litteratura mais doce, mais consoladora, mais orvalhada de lagrimas refrigerantes para os que na lucta ficam vencidos, e mais cheia de serenas alegrias para os que, vencedores, recolhem os louros do triumpho.

Na esphera do realismo, visto esta palavra andar hoje em voga, Gomes Coelho está no polo opposto ao dos irmãos Goncourts, Zola, Gaboriau, Feydeau, e muitos outros. Nós, «entendendo realismo do unico modo por que póde admittil-o a consciencia e confessal-o a razão, julguemol-o só observador consciencioso, reproductor discreto» para nos servirmos das palavras de Mendes Leal, e veneremos em Gomes Coelho, no amavel moralista, como lhe chama o mesmo escriptor, essas qualidades que elle possuia em grau eminentissimo.

Não é nosso intento, nem o comportam as exiguas dimensões d'um esboço biographico, fazermos uma critica especial sobre cada livro de Julio Diniz. Propozemo-nos simplesmente estudar-lhe a maneira, fazer sentir a sua individualidade exclusivista, e com isso nos contentamos.

Céo limpido, atmosphera pura, montanhas vagamente esbatidas no horizonte, campinas cobertas de flores e esmaltadas por aguas scintillantes e suspirosas, a amenidade da aldeia n'uma palavra, a natureza rude mas{35} casta,—n'isto se resumia a mise-en-scene dos seus dramas. Os seus personagens não eram os pastores anachronicos de Gessner ou Virgilio, os pegureiros ignorantes das alturas de Barroso. Eram, como já deixamos vêr, os corações formosamente singelos, como as flores d'entre as serras, o reitor, o herbanario, o camponez abastado, o cirurgião, o fidalgo, e as mulheres cujos corações desabrochavam para florir na primavera perpetua do bem. A mulher! oh! essa nobilitava-a elle sempre, modelando-a pelo seu ideal de formosura e bondade, pondo-lhe no coração balsamos para todas as chagas, conforto e ensinamento para todos os obcecados pela paixão infrene. Destacam-se sobre um horizonte azul, como a vela branca na amplidão das aguas dormentes, os seus incomparaveis typos de mulher, ou estudemos a Margarida das Pupillas do senhor reitor, ou a Jenny da Familia ingleza, a Magdalena da Morgadinha dos canaviaes e a Bertha dos Fidalgos da casa mourisca. Sempre a mesma doçura, a mesma bondade intelligente, a mesma elevação, a mesma pureza de ideias e sentimentos!

Notaremos de passagem uma circumstancia muito para significar até onde ia a magnanimidade de Gomes Coelho.

Aproveitando o typo do velho cirurgião, mais experiente do que instruido, com maior peculio de anecdotas do que de conhecimentos scientificos, dando-nos aquelle interessante e completo João Semana das Pupillas do senhor reitor, não foi para fazer d'elle a caricatura do proto-medicato, um personagem grotesco e risivel, senão para nos obrigar a estimarmol-o e a respeitarmos a sciencia antiga apresentada n'um homem de nobilissimo coração. O mesmo não aconteceu a Silva Gaio, escriptor eminente é certo, mas critico incisivo e quasi sempre apaixonado, mormente em assumptos historicos, que fez do João Marques, do Mario, a caricatura cruelmente verdadeira do charlatanismo medico.

Os romances de Julio Diniz foram profusamente apreciados pela imprensa. Além do seu valor real offereciam certa novidade para o publico portuguez,—nacionalisavam{36} o moderno romance britanico, desconhecido em Portugal. Na vanguarda dos admiradores de Gomes Coelho collocou-se espontaneamente o snr. Alexandre Herculano e, após elle, muitos talentos distinctos da nossa terra sahiram a festejar o modesto romancista portuense, para quem a justa gloria que lhe outorgavam era mais um gravame pesado de que um galardão para a consciencia.

Obriga-nos a nossa qualidade de chronista a consignar um senão apontado pela critica mais illustrada, sempre respeitosa e enthusiasta, especialmente pelo snr. J. M. de Andrade Ferreira, na Gazeta litteraria do Porto—era que Julio Diniz falseava a cada passo a linguagem dos seus personagens, recrutados na população dos campos, quando esta linguagem devia ser singela, chan e rude para soar verdadeira e natural aos ouvidos menos exigentes.

Pouco é o que do romancista temos dito, mas n'esta rapida apreciação, assim exigida pela natureza d'um esboço biographico, concentramos as nossas opiniões, que por menos contrahidas, não se alterariam n'um estudo de mais latas dimensões.