VIII
Em junho de 1871 annuiu Gomes Coelho a retirar-se com a familia de seu primo, o snr. José Joaquim Pinto Coelho, para a rua do Costa Cabral, na enganadora esperança, que alimentavam os seus, de que a proximidade benefica dos campos seria obstaculo à marcha, cada vez mais accelerada da molestia.
Levou comsigo alguns livros, especialmente inglezes, a cuja leitura se entregava com interesse. Não obstante os extremos carinhos da familia que o rodeava, e{37} a solicita assistencia dos seus intimos amigos, o primeiro mez foi de continuo definhar, sendo-lhe já motivo d'aborrecimento, muitas vezes, o rever as provas dos Fidalgos da casa mourisca, que se estava imprimindo, apesar de auxiliado n'este trabalho por seu primo, e podemos dizer enfermeiro, o snr. Pinto Coelho.
Assim foi declinando a vida de Gomes Coelho, até que á uma hora da madrugada do dia 12 de setembro, tendo passado a noite com seu primo, e o seu intimo amigo o snr. Custodio José de Passos, sem denunciar tão proximo desenlace, exhalou o derradeiro alento, depois d'uma longa agonia de tres quartos d'hora.
O Jornal do Porto, que fôra o primeiro a festejal-o, foi tambem a primeira folha do paiz que divulgou a triste noticia do seu passamento, n'estas sentidas palavras escriptas pelo meu amigo Sousa Viterbo, então colaborador effectivo do mesmo jornal:
Aproximam-se as tristezas do outomno e ás tristezas da natureza ajuntam-se as melancholias do coração.
O paiz e as boas lettras acabam de perder um dos seus mais estimaveis talentos. Joaquim Guilherme Gomes Coelho expirou esta madrugada á uma hora.
Mais que a nenhum outro jornal do paiz, ao Jornal do Porto cabe-lhe o dever de derramar uma lagrima de saudade sobre o tumulo do grande romancista. Foi nas columnas do nosso diario que o author das Pupillas do senhor reitor principiou a sua brilhante carreira litteraria.
Era com a maior avidez que os nossos leitores seguiam os folhetins do Jornal do Porto, quando esses folhetins publicavam as perolas da nossa litteratura, que se denominam—as Pupillas do senhor reitor, Uma familia ingleza, e a Morgadinha dos canaviaes.
A Providencia não quiz conceder a Gomes Coelho mais um momento de vida para rever as ultimas provas do seu derradeiro romance—Os fidalgos da casa mourisca. Que saudades que não levaria elle do seu livro!