Gomes Coelho não era sómente romancista: era tambem um homem de sciencia. Tres vezes concorreu ás cadeiras da Eschola-Medica e de tres vezes o seu talento robusto deixou um rasto fulgurante. Todos o reconheciam como uma das primeiras capacidades d'aquelle estabelecimento scientifico.
Como Soares de Passos, de quem foi amigo, Gomes Coelho deixa uma lacuna difficil de preencher na nossa litteratura. A sua carreira litteraria estava por completar ainda. A sua imaginação estava ainda fresca como um dia de primavera. Que de{38} flores que se não perderam; que de fructos esmagados sob a lousa d'um tumulo!
Gomes Coelho deixou retratado o seu espirito nas paginas suaves, doces, innocentes dos seus romances. Era uma alma singela como as scenas que tão delicadamente nos descrevia. Observador profundo, enamorava-se do que havia de bello na alma popular e deixava no escuro as miserias que ennegrecem a vida. Comprehendia que a litteratura tinha uma sacrosanta missão e nunca manchou a sua penna nas torpezas da comedia humana.
Gomes Coelho ha muito que se debatia com as agonias da doença. O seu espirito de gigante debalde luctava com a debilidade do corpo. Os seus profundos estudos, a sua assiduidade no trabalho deviam-lhe minar forçosamente a existencia. Debalde procurou na ilha da Madeira allivio aos seus padecimentos. Os amigos que o viram partir da ultima vez ficaram nutrindo a esperança de que os ares purificados da perola do oceano lhe dariam novo alento. A esperança foi illudida.
Durante a sua estada na ilha da Madeira, Gomes Coelho conviveu com um talento privilegiado, a quem o Jornal do Porto deveu tambem os thesouros opulentos da sua penna. Mais feliz que Francisco de Paula Mendes, Gomes Coelho veio morrer ao solo natal, entre os amigos que o queriam e a familia que tanto o estremecia.
Entre os membros d'essa familia conta-se um confrade nosso (era o snr. J. J. Pinto Coelho, então nosso redactor) que a estas horas verga ao pêso d'uma dor excruciante. Enviamos ao confrade amigo e aos seus o testimunho da nossa profunda magua.
Na typographia estava-se compondo o segundo volume do seu romance, quando a noticia da morte de Gomes Coelho corria de bocca em bocca, despertando geral commoção. Mezes depois, em janeiro de 1872 sahiam a lume os Fidalgos da casa mourisca. E todavia, áquella hora em que a triste nova circulava de praça em praça, de casa em casa, restava apenas do grande talento de Gomes Coelho um cadaver preparado para o sepulchro, ao sopé d'um Christo alumiado pela luz arquejante dos cirios.
O Jornal do Porto, fazendo-se cargo de acompanhar á ultima morada os despojos mortaes do escriptor cuja gloria primeiro prophetisara, escrevia no dia seguinte:
Baixou hontem á terra o cadaver do chorado e talentoso escriptor, cuja morte prematura noticiamos na nossa folha de terça-feira.
Os responsos de sepultura foram rezados na velha Igreja de{39} Cedofeita. Era grande o numero das pessoas que assistiram a este acto funebre: entre ellas o corpo docente da Eschola-Medica, de que o finado fazia parte, e alguns professores de outras corporações scientificas e litterarias.