O nosso silencio poupa a modestia do author; e a publicação do romance, apenas encetada, prova o apreço em que o temos.
Se estas palavras são elogios, que traduzem agradecimentos, receba-os o snr. Julio Diniz, em boa hora, para que nos abram a porta da desculpa, que pedimos, por havermos, contra vontade, demorado a publicação das—Apprehensões d'uma mãe.
A 4 de novembro do mesmo anno sahiu, no Jornal do Porto, o primeiro folhetim do Espolio do senhor Cypriano, com o pseudonymo de Julio Diniz.
Cabe, pois, ao Jornal do Porto a honra de ter sido a lente que reflectiu os primeiros alvores do seu talento. N'aquelle acreditado orgão da imprensa portugueza muitas aguias, como em ninho querido, teem ensaiado{15} forças para voar depois ás regiões do poder e ás eminencias litterarias. Basta que citemos como exemplos, ao correr da penna, os nomes de José Luciano de Castro, Barjona de Freitas, Ramalho Ortigão, Augusto Soromenho, D. José d'Almada, Teixeira de Vasconcellos e Julio Diniz. Um grande escriptor, porém, alli começou a manifestar o seu gentilissimo espirito, sem se namorar dos triumphos em que outros pozeram mira, e a que chegaram pelos seus proprios merecimentos, que o Jornal do Porto, diga-se de passagem, tem sempre combatido pelos direitos publicos na vanguarda do periodismo portuguez, sem hypothecar a sua opinião a influencias pessoaes ou compadrios politicos. Permitta-se ao mais obscuro redactor d'aquella folha este sincero preito de consideração pelo nobre caracter do seu proprietario.
O escriptor a que nos referimos chamava-se Francisco de Paula Mendes, e outra individualidade não conhecemos que mais relações de similhança tivesse com o romancista, cujo esboço biographico estamos traçando.
Ambos herdaram de suas mães os germens da molestia a que succumbiram; em ambos era igual a modestia; ambos honraram as columnas do Jornal do Porto; ambos foram procurar á ilha da Madeira a saude que já não podiam encontrar; e ambos, finalmente, deixaram lacunas quasi irremediaveis no jornalismo e na litteratura.
IV
De 1862 a 1863 escreveu Gomes Coelho o romancezinho—Novellos da tia Philomella, que principiou a ser publicado no Jornal do Porto em 22 de janeiro d'este ultimo anno.
Foi em Ovar, onde o deixamos em patriarchal tranquillidade, que planisou e traçou os primeiros capitulos das Pupillas do senhor reitor. O seu espirito, refocillado{16} nos ocios d'uma convalescença despreoccupada, comprazia-se nas variadas scenas com que a imaginação poderosa do poeta anima um mundo phantastico que para si creou. Assim se explica a espontaneidade com que não só encetou o romance Pupillas do senhor reitor, mas com que tambem foi trabalhando simultaneamente n'esse formoso esboceto—Uma flor d'entre o gelo—, cuja publicação começou no Jornal do Porto em 21 de novembro de 1864, apparecendo pela primeira vez o seu nome—Gomes Coelho.
Em maio de 1864 sahiram no mesmo jornal dois folhetins, creio eu, com o titulo de Cartas ao redactor do Jornal do Porto ácerca de varias coisas, rubricadas com o pseudonymo de Dianna de Avelleda. Facil foi reconhecer-se então sob aquelle véo transparente a individualidade litteraria de Gomes Coelho. Entrelembro-me que a maior parte de um d'esses folhetins era consagrada á memoria de Rodrigo Paganino, talento que, pela sua extrema delicadeza e o seu amor aos assumptos campesinos, tinha estreita affinidade com o de Julio Diniz. Em agosto d'esse anno publicou com o mesmo pseudonymo, e no mesmo jornal, alguns folhetins, poucos foram, sob a epigraphe—Impressões do campo, a Cecilia.