—Quando eu vim, a senhoria disse-me: «Peço a v. ex.ª todo o cuidado com esta chavena, que era a chavena do papá.»
—Como o sabre da Grã-duqueza!
—Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de nós tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loiça. Mas o meu criado ousou limpal-a hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta á procura de uma chavena, que possa continuar a ser, na tradição da casa, a chavena do papá!
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Nada ha que me dê tanto a impressão do communismo como um club de praia.
É de todos, sem pertencer a ninguem.
Cada um que vem chegando pensa que o club é seu. A primeira cousa de que se apossa é... o piano. O piano passa a ser, não um instrumento de musica, mas um escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um negro, cujos dentes são muito brancos... Açoutam-n'o com as mãos, e não protesta; dão-lhe pontapés no pedal, e não se desconjunta. Familias inteiras vão affirmar no teclado os seus direitos de socio. A mãe toca a Norma, que é uma opera[{17}] do seu tempo, a filha perpetra a Carmen; o filho executa os Fados—com a mão direita.
O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a não deixal-os lêr por mais ninguem.
As primeiras senhoras que á noite chegam ao club parecem tomar gosto á grandeza da sala...
O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem á porta a contemplal-as... de longe.