Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa, para se dar importancia a uma mosca, é preciso que ella haja[{15}] sido audaciosa até o ponto de escolher para suicidar-se o nosso prato de sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, as moscas matam. Teem dentes; são carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas pelos banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de troça umas com as outras.

Só nas praias é que o europeu consegue ser victima das moscas. E fallarmos nós com horror das moscas de Africa! As moscas saloias são muito peiores!

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Em Lisboa, os criados passam ás vezes um anno inteiro sem partir loiça.

Mas, chegando ás praias, os seus dedos parecem debeis como vimes. Quebram hoje um copo, ámanhã um prato, escacam, em quinze dias, metade da loiça do senhorio.

Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de loja em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.

—Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma chavena!

—É vulgar.[{16}]

—Quebrar é vulgar; mas a chavena é que o não era.

—Como assim?!