29 de novembro de 1887.[{117}]

DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET

(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas sobreviventes d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da Trindade.)

Venho d'entre as ruinas e das chammas,
Onde tudo perdi. Sabeis a historia,
Que o vosso coração ainda contrista.
Perdoai a vaidade ao pobre artista...
Eu sonhava essa noite com a gloria.

Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!
Tive por ovação prantos, clamores.
Ossadas por cortejo. O incendio e a fama
Disputaram ali. Venceu a chamma.
Eram chammas o palco e os bastidores...

E ali n'essa sinistra apotheóse
Ficaram sepultados meus thesoiros,
Amigos que eu perdi,—tão dedicados!
Minha pobre familia,—os meus cuidados,
Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...

Sou agora a mim proprio quasi extranho,
Um viajante perdido no deserto,
N'esse infindo deserto da saudade.
Sinto ainda a desgraça muito perto...
Mas sinto ainda mais perto a caridade!

Se vivo, é só por ella. Em seu regaço
Choro o meu abandono, as minhas dôres.
Refunde-se a minha alma em muitas almas,
Vale um consolo o que não valem palmas...
Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...[{118}]

UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO

(Etelvina Julia d'Almeida.)

Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!
Da sua face bella as frescas rosas
Deviam ter suavissimos encantos
Se os beijos, namoradas mariposas,
Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!
Da sua face bella as frescas rosas.

Mas quem hontem logrou reconhecel-a
Entre as negras ruinas sepultada?...
Mas quem poude affirmar, dizer: É ella!
Ella que fôra outr'ora alva e rosada!
Já não poude ninguem reconhecel-a
Entre as negras ruinas sepultada.

1.º DE DEZEMBRO

Filippa de Vilhena!
João Pinto Ribeiro!
Palavra, que faz pena
Ver o despenhadeiro
Em que isto agora vae!
E como o paiz cae!

Agora é só dinheiro.
Está campando em scena
Sómente o deus Milhão!
Filippa de Vilhena!
João Pinto Ribeiro!
Palavra, que faz pena...
Agora é só dinheiro...
E os que lá vão lá vão!

1887.[{119}]