EMILIA

(Minha irmã.)

Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu.
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.

Por mais que tu procuraste
Reprimir-lhe o ancioso vôo,
Eras tão debil! cansaste.
Deus quiz o anjo, e levou-o.

Tinha reflexos tão doces
O teu olhar doce e brando,
Que logo pensei que fosses
Lirio que veio voando

D'essa translucida esphera,
Tão cristalina e tão alta,
Onde a eterna primavera
Sentiria a tua falta.

Então as flôres celestes
Chorando saudosamente
Vestiram lutuosas vestes,
Feitas de seda somente.

E, debruçadas nas sépalas,
Choraram pranto divino
Sobre o justilho de pétalas,
Polvilhado de ouro fino.

Deus viu-as tristes, chorosas.
Nos seus ethéreos jardins,[{120}]
E chorou co'as suas rosas,
Teve dó dos seus jasmins.

E como o pranto divino
Tambem, como pranto, queima,
Deus co'a sua voz, um hymno,
Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»

E as azas, mal escutaram
A celeste melodia,
Obedeceram, voaram,
Qual d'ellas mais voaria.

Quando esse lirio nevado
Chegou de novo ao empireo,
Ia triste e maguado,
Deus estranhou o seu lirio!

E o que o lirio não dissera
Tudo Deus adivinhou.
Voando á celeste esphera,
Chorára emquanto voou.

As flôres do azul sorriam,
Os lirios do ceu cantavam,
Meus olhos já te não viam,
Meiga creança, e choravam.

Nunca tu azas tiveras,
Que te elevassem ao ceu
Nunca tu voar poderas
Co'as azas que Deus te deu.

24—2—87.[{121}]

JOÃO DE DEUS

João de Deus! De Deus... porque é divino.
João, ou seja o primo de Jesuz
Ou o outro que vela junto á Cruz,
É divino tambem.
E não atino
Senão co'esta rasão: foi prophecia
—Se já não foi destino—
De quem previu que João de Deus seria
Um poeta divino.

Ericeira, 21—10—90.

KERMESSE

O bem é como as auroras,
Que para tudo o que existe
Espalham luz e calor.
Seja alegre ou seja triste
A alma, o insecto, a ave, a flôr,
Tudo o que ri ou que chora
Sente nos raios da aurora
A esmola do eterno amor...

Os beijos do sol aquecem
Tudo o que é velho ou que é moço,
O ephémero e o colosso.
As rochas e os corações,
Os lagos e as ondas bravas,
Emporios e solidões,
As lagrimas das escravas
E os sorrisos das rainhas,
As cavernas dos leões
E os ninhos das andorinhas.[{122}]

E o bem é como as auroras.
Por isso ao bem não esquece
A creança, o ninho, a escola...

Tu és como o sol, esmola!
És como a aurora, kermesse!

OS TREZ VELHOS