I

Cahiu um nevão na serra.
Desde a cumiada ao val
Alveja rútila a terra.
Não houve nevão egual!

O ar gelado, cortante,
Passa sobre as povoações
Ceifando como um montante,
Rugindo como os leões.

Arvores sêcas, esguias
Olham para o ceu, talvez
A soluçar elegias,
Carpindo a sua nudez.

Cheias de fome, as manadas
Sobre as campinas despidas
Só róem urzes queimadas
E raizes ressequidas.

A fome, a doença, a morte
Assentaram arraiaes
Junto ao casal e á corte,
Levando gente e animaes.[{123}]

Famintas, as alcateas
Vem de noite ao povoado.
Tremem de medo as aldeas,
Ouvindo o lobo esfaimado...

E desde o alto da serra
Abre a neve o seu lençol.
O que seria da terra
Sem ter um raio de sol?!

II

Entre a egreja e o presbyterio
Corre, caiado de novo,
O muro do cemiterio.
Vem ali juntar-se o povo.

O sol, batendo no muro,
Aquece a pedra ao meio dia,
Torna o inverno menos duro,
Tempera a nortada fria.

Lá se juntaram trez velhos
Sêcos, rijos, vermelhaços,
Expondo ao sol os joelhos,
Estendendo ao sol os braços.

Emquanto o sol os aquece,
Riem-se elles da nortada.
Cada um seu mal esquece,
Vai tudo de patuscada.

—Tem morrido muita gente
Com esta grande invernia!...
—Pois nunca o inverno foi quente!
—Salvo... este sol do meio dia.[{124}]

—Este sol é a minha adéga:
Eu não quero outro calor.
—Você o vinho renega!...
—Lingua de mau pagador!

—O vinho é caro. A cacháça
Custa agora...
—Isso que monta!
—O sol dá-o Deus de graça!...
—Mas beba vinho com conta!

—Eu cá nunca fui borracho.
—Nanja eu. Mas acho-o bom.
—Diz um cacho a outro cacho:
Não bebas sem tom nem som!

E n'esta mansa folia
Vão-se aquecendo os trez velhos
Ao doce sol do meio dia,
Rijos, sêcos e vermelhos.

III

—Lá vem enterro... Isto agora...
Não tem descanso o coveiro!
—Vem d'acolá d'onde mora
A mulher do Zé Cabreiro.

—Foi o filho... É de creança
O caixão: eu inda vejo!
—O coveiro não descansa!...
—Inda hontem lhe dei um beijo!

—A quem? Ao coveiro?!
—Irra!
Ao filho do Zé Cabreiro.[{125}]
—O frio as creanças mirra.
—Lá vem atraz o coveiro...

—A morte leva os fedelhos,
Mata n'um dia um rapaz,
Emquanto que nós, os velhos.
Vamos ficando p'ra traz!

—A morte é uma gulosa,
Gosta de bocados finos.
Carnes que cheirem a rosa,
Polpa de tenros meninos...

—Póde ser!...
—Pois certamente!
Nós cá, ossos esburgados,
Nem para a cova de um dente
Lhe chegavamos, coitados!

No alto mar me contava
Um velho de Guimarães
Que a terra se embebedava
Com as lagrimas das mães...

—Por isso lhes leva os filhos!...
A gulosa!... Quer banquete!
—Quem tem filhos tem cadilhos.
Morreram-me. Eu tive sete!...

—E eu nenhum.
—Nem eu.
—Agora,
Sem ter filhos nem mulher,
Visto que ninguem nos chora,
Nem mesmo a terra nos quer!...

Janeiro de 1891.[{126}]

AS POMBAS

(De Theophilo Gautier.)

Na collina dos mortos, entre os tumulos,
Ergue a bella palmeira a verde pluma,
E á tarde as mansas pombas de azas candidas
Vão aninhar ali, uma após uma.

De manhã, quando o sol desperta rutilo.
As brancas pombas vão, cortando o ar,
Como um solto collar no azul ethéreo,
Longe do ninho um tecto procurar.

Minha alma é como a solitaria arvore
Onde enxames de loucas illusões
Poisam á noite. Fugitivos hospedes,
Vão-se co'a luz as pombas e as visões.