8—2—87.

MULHER E GATA

(Paul Verlaine.)

O vel-a até dava gosto
Brincando co'a sua gata,
Branca mão contra alva pata,
Na penumbra do sol posto.

Mitene, que a mão recorta,
Por dissimular trabalha
Unha d'ágatha, que corta
E brilha como navalha.

Mas a gata, disfarçada
Tambem, com prazer ronrona[{127}]
E ensaia a unha acerada...
Não é melhor do que a dona!

E os dois labios purpurinos
Enchiam de riso o ar,
Onde se viam, felinos,
Quatro phosphoros brilhar.

N'UMA SALA

A um canto, os politicos fallavam
Com um certo mysterio
Do modo como as coisas caminhavam,
Se estava forte ou fraco o ministerio.

Alguem que se mostrava resentido,
Abanava a cabeça—era um symptoma
De que a seu vêr o mundo está perdido
E tudo cae,—como caíra Roma!
Elle só, por sciencia e por estudo,
Era talvez capaz de salvar tudo...

N'outro canto da sala gorgeiava
A musica do riso e d'alegria
Um grupo que sorria e que fallava
De quanto ouvia e via.
Era o grupo formoso das solteiras,
O grupo dos vinte annos,
Que é capaz de passar noites inteiras,
Rindo de tudo,—até dos desenganos!

D'este grupo gentil como é que eu posso
Desenhar o esboço?
Precisaria ter as tintas finas,[{128}]
O magico pincel
De que dispunha o grande Raphael!
Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.

Quereriam talvez as bellas damas
Vêr no papel traçado o seu perfil?!
N'essa não caio eu...
Quem é capaz de retratar abril?
De transportar á tela o que é do ceu?
De copiar as flôres?
De imitar as estrellas?
De dizer á manhã: Roubei-te as côres?
Tende paciencia, ó minhas damas bellas,
Incumba cada uma o seu Romeu
D'esse arrojo inaudito.
Eu cá por mim, repito,
N'essa não caio eu...

E de mais eu bem sei, minhas senhoras,
Que me attendestes n'um serão inteiro
Por não haver na sala algum solteiro...
Sois boas, não sejaes enganadoras.

Eu já tenho trez filhos, eu sou velho,
Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,
E o maldito do espelho
Tem-me mostrado até... pés de gallinha!...

Vão muito longe as minhas primaveras.
De mais a mais, senhoras, a aza branca
Da musa ideal que eu tive n'outras eras
Desplumou-se a pensar em Salamanca,
No imposto sobre o sal,
A estudar as questões do parlamento,
O orçamento geral,[{129}]
—Diabo de orçamento!
Que é o livro maior que ha em S. Bento!
Assim se foi rasgando, creio eu,
Essa aza branca que me erguia ao ceu!..

Vede, senhoras, se ha tormento igual!
O que me resta só,
Para de todo errar da sorte o alvo,
E vêr-me, um dia, calvo,
E descer á miseria... de um chinó.

N'estas alturas, minhas damas bellas,
Não posso ser pintor.
Quereis vêr-vos, senhoras, retratadas
Formosas como sois, e delicadas?
Mirae-vos n'uma flôr...

N'essa não caio eu...
Fazer-vos o retrato?!
Mas, em compensação,
Com a vossa adhesão
Estou prompto a fazer um syndicato.[{130}]

XV

Os amaveis

Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre previdentes, tendo á flôr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que, quando não encantam, incommodam com certesa os outros...

Sim, porque os grosseiros custam a aturar, são bruscos, são asperos, são impertinentes. Mas os amaveis de profissão, os que fazem gosto e gala de o ser por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.