Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os grosseiros. E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel, devendo ter sido grosseira!...[{137}]

XVI

A sepultura d'um traidor

Devo começar por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a contar historias, tenho ainda o mau costume de começar pelo principio.

O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.

O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gésteira e do morgado do mesmo nome.

Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete gerações, e uma riqueza talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.

Pela sua parte, elle não precisaria ser tão nobre nem tão rico para se fazer estimar e adorar.

Era, realmente, uma creança insinuante, meiga[{138}] e intelligente, quasi nada voluntariosa apezar dos extremos, por vezes ridiculos, com que era tratada.

A mãe parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; ás vezes adoeciam, mãe e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico para ambos, porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira da sociedade que tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para a mulher e para o filho, isto é, para uma só alma partida em dois corpos.