No solar da Gésteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte integrante da familia: era o padre João, capellão da casa.

Padre João accumulára tambem as funcções de preceptor do sr. D. Ruy durante a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lêr e a rezar. Umas vezes por outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragança, que, segundo elle, era o Desejado dos tempos modernos.

Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que se devia fazer d'aquelle menino.

O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua riqueza e a sua fidalguia?

A mãe, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era não se pensar mais n'isso, que o sr. D. Ruy já sabia lêr o bastante... para não ser analphabeto.[{139}]

Padre João concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa para os pobres.

O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o filho o fosse.

Vivendo amarrado ás tradições de familia, queria que o filho se graduasse em leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um cavallo para passeiar, como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo, exhibindo-se, n'uma palavra, em toda a plenitude das regalias que uzufruiam os morgados em Coimbra.

Padre João concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber não ficava mal a ninguem.

A morgada zangava-se, e dizia: