—O padre João está fallando assim por comprazer com meu marido. Já lhe tenho ouvido dizer que a sabedoria é boa para quem não tem outra coisa.
O bom do capellão via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois com os dedos sobre os joelhos:
—Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto á terra. Uma envernizadella ao espirito não faz mal a ninguem...
—Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta de bacharel. Póde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor é que não. O padre João já viu alguem nascer doutor?[{140}]
—Eu, não, sr.
—Pois se não viu, é porque para o ser é preciso estudar e saber alguma coisa. E a honra é tanto maior quanto o individuo, pela sua posição social, menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos mudaram, e um fidalgo ignorante já ninguem o toma a serio. Eu quero que meu filho vá a Coimbra.
A fidalga punha os olhos no chão, ficava calada e triste.
—Mas isso não é por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver sem o teu filho, como minha mãe se habituou. O habito é uma segunda natureza. Primeiro entrará o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o Porto,—e olha que faço n'isso algum sacrificio, porque já me custa arrancar-me á vida da provincia. Para que elle tambem se habitue a viver sem nós, mettemol-o n'um collegio, no da Guia, por exemplo, porque tenho boas informações a respeito d'essa casa de educação. Iremos vel-o sempre que queiras. Pelas ferias, sahirá, viremos para a Gésteira, a fim de que elle possa saborear, de tempos a tempos, o bem estar da casa paterna, conservar as tradições de familia, que eu tanto prezo, e tu tambem.
De sahir da Gésteira, de deixar o seu querido Minho, é que padre João não gostava;[{141}] mas, chamado a conselho pelo morgado, não tinha remedio senão concordar.
Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da Guia estudar preparatorios.