Veio para casa contar á mãe o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a segunda feira tardava-lhe. A mãe alegrou-se um pouco da alegria do filho. Pela manhã lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes, sorrindo outras, soffrendo e amando.

Padre João foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a janella. Chorava. Chegára finalmente o momento terrivel, que ella temia tanto. Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O sr. D. Ruy ia bem disposto, sentia-se forte, disse adeus á mãe sem chorar, mas á esquina da rua, quando a janella ia desapparecer, o valoroso 416 voltou-se[{144}] ainda uma vez para traz, e limpou duas lagrimas ao canhão da jaqueta.

É que, por muito leviano que se seja quando se é creança, sempre se tem consciencia de que uma mãe faz muita falta.

O 416 deu boa conta de si no collegio da Guia. De dia, as aulas e o recreio absorviam-lhe a attenção; á noite, nos primeiros tempos, arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de adormecer, pensava na mãe. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se inclinava sobre o leito a compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a roupa. A cabeça de Christina tomava então o aspecto de uma aza protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no lençol, soluçando, e adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre João lhe ensinára. Mas, pela manhã, a disciplina escolar não lhe dava occasião para pensamentos tristes: era saltar da cama e começar a lide.

Ao cabo do primeiro mez, o 416 já adormecia melhor.

Como as suas relações com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais, faziam ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a Gésteira o seu condiscipulo: já estavam solicitadas as respectivas licenças. Não havia duvida nenhuma. Fariam um Judas logo que lá chegassem. Houve apenas uma pequena divergencia, entre os dois amigos, sobre o modo[{145}] como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol—com as respectivas castanhetas. A sua opinião venceu, com uma simples modificação: as castanhetas seriam substituidas por um pandeiro.

Padre João, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol não era proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois collegiaes não quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capellão de lhe comprar um fato de hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de Santo Antonio, n'um guarda-roupa de carnaval.

Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gésteira! A morgada parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os projectos dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser espaventosa.

Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo... castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pôr-lhe uma bomba, que devia rebentar como uma peça de artilheria. Na cabeça, outra bomba: o chapeu devia ir parar a casa do diabo.

Logo que chegaram á Gésteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouço era de palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares; ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraça de andaluz, e um sombrero[{146}] com debrum de velludo preto. As mãos eram duas luvas de algodão com recheio de palha; na esquerda tinha um pandeiro, e na direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame, bater no pandeiro, e fazel-o soar. Na bôca um charuto: era uma granada envolvida em folha de tabaco. Nos pés, esporas de lata, com polvora dentro.