XVII

A caminho do Alemtejo

Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu estava carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do Barreiro, uma grande corda de agua principiára a cahir. Corremos todos para as carruagens;—foi um verdadeiro sauve qui peut.

O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada. Eu sentia-me somnolento, cabeceava. Na estação de... (sejamos discretos) sentindo correr uma vidraça na carruagem immediata, espertei. Uma voz, n'um tom agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a cabrinha?

O chefe da estação, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente para a carruagem[{149}] d'onde a voz partira. Havia ficado visivelmente aborrecido, mas continuára fazendo o seu serviço. De instante a instante, ao passo que a voz repetia—E a cabrinha?—elle resmungava.

Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento em que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E a cabrinha?

O que se passou não sei, mas n'uma das estações seguintes procurei occasião de perguntar ao meu visinho, que se apeiára, o que aquillo queria dizer.

O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.

Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimação, que lhe dava magnifico leite para o almoço. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com a dona, mostrava-se pouco affeiçoada ao dono. Um dia, por um motivo qualquer, a mulher do chefe da estação teve de ausentar-se; o marido ficou, desempenhando as funcções do seu cargo.

Quando chegou a hora do almoço, o chefe tratou de chamar a cabrinha para mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a tomar o seu café sem leite. Não gostou, e tratou de afagar a cabra para que ella se mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro dia a mesma comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores maneiras,[{150}] e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.