Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel para o marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o espirito de um homem como vêr uma mulher, que tem a vocação da guerra, offerecer-lhe um beijo... de paz! Oh! é glorioso[{162}] para um vencido acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor!

Deverá ser rica? Para passar a vida, é bom que seja rica a mulher. Mas não deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu d'ella. Quando um marido em taes condições manda pôr o trem, sente-se engasgado como se tivesse de dizer: «O José, manda pôr o coupé da senhora.» Se vae ao theatro, ao entregar o bilhete ao porteiro, a consciencia grita-lhe que deveria dizer, a querer ser sincero: «Abra o camarote da senhora!»

Oh! deve ser horrivel!

Pobre? E se a mulher é pobre? Dá isso pena a um marido que sinceramente a estime. «Aqui está, dirá elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu quizera proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma princeza, e comtudo só poderei offerecer-lhe este mez um vestido de percale.» De modo que a independencia de que um tal marido gosa junto de sua mulher, e aguada pelo desgosto de a não poder felicitar tanto quanto desejava.

É difficil a escolha! concluirá o leitor. Com effeito assim é. Difficilima, acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a dificuldade da escolha: é amal-as a todas indistinctamente, para, com o auxilio da experiencia, escolher depois a melhor... se houver tempo para isso.[{163}]

XIX

O carnaval...

Já contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de Estarreja.

Mas vou reedital-a, para que se torne tão conhecida quanto o merece a mais interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa tem produzido, desde que a caraça é caraça.

Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patuscão, vivia no solar de um fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos meninos da casa.