Deverá preferir-se a mulher formosa?
É decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida é uma serie de illusões, e a formosura a mais grata das illusões.
Lá disse o padre Vieira: «O que é a formosura senão uma caveira bem vestida?» Mas, emquanto está bem vestida, agrada, attrae, fascina.
Todavia, se se pensa um momento, receia-se...
A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse perigo, que constitue um sobresalto permanente.[{161}]
E depois o que a possue não póde de certo esquivar-se a pensar com os seus botões, á medida que a belleza se vae apagando: «Quem te viu e quem te vê!»
Se a mulher vale só pela formosura, faltando-lhe a graça, a bondade, uma qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graças á theoria das compensações, essa mulher é, já o disse alguem, um livro que uma vez lido, não tem mais que lêr.
Deve procurar-se uma mulher de bom genio?
Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de açorda, é uma espécie de menu sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito não passa de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um doente.
Não irrita, mas não vivifica. Não esfria, mas não aquece. Quando um homem chega a festejar as suas bodas de prata, não tem que dizer aos outros senão isto: «Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da minha vida n'uma paz podre, que me sabe a gallinha cozida.»