Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um predio capaz de resistir[{159}] a um terremoto! Magnifico! Já passou a epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de creança. Nada de esboços, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou já de dar os ultimos retoques! Excellente!

Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situação das feias, ainda que tenha sido formosissima.

—Muito obrigada pela distincção que o cavalheiro me concede! parece dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes, tantas rosinhas em botão, tantas flôres frescas e mimosas, e o cavalheiro por todas passou sem as cobiçar! Realmente, sinto-me captivada... Mas deixe estar que não hade arrepender-se. Saberei amal-o como duas meninas, pelo menos: uma, que já fui, outra, que torno a ser, remoçada pelo seu amor.

E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella é coração, toda ella se dispende em lembranças mimosas, enviando ao cavalheiro flôres para a lapella e rebuçados para o peito.

Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de amar, tomára um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e effluvios, ir dar um passeio ao Campo Grande.

Pelo caminho, o coração trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas, infelizmente, não havia[{160}] um homem que quizesse ter a heroicidade de amal-a.

Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, já com o pé no estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos.

E deixando-se cair para fóra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia de amparal-a carinhosamente, exclamou:

—Amo-te, José Traquitana!

Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas é de presumir que a dama, acceitando as consequencias da sua allucinação, viesse a tranformar esse cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a vida, visto que havia principiado por ter boa mão de rédea.