Vê a gente ás vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a nós nos parece feia.

Sempre que isto acontece, é para desconfiar que exista uma compensação, uma qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que nós, conseguiu descobrir.

De mais a mais, nada ha tão vehemente, tão vulcanico como o amor das feias. Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do coração, de modo que o seu primeiro amor é como que uma explosão do Vesuvio.

No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que póde stenographar-se do modo seguinte.

—Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes denodadamente contra o preconceito da belleza, e que reunes á coragem o talento,[{158}] porque só tu foste capaz de descobrir a belleza na fealdade, a compensação que a natureza me concedeu. Saber que uma mulher é bella, quando ella realmente o seja, não engrandece o espirito de ninguem. Basta, para isso, não ser cego. Mas vêr uma obra de arte, a que todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua, chega a ser brilhante, a ser glorioso, ó nobre, ó bravo, ó excepcional cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicação!

Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto é, pelos olhos de uma mulher, faz impressão no espirito de um homem, envaidece-o, lisonjeia-o, acaba por subjugal-o.

E assim se póde explicar de certo a rasão por que as feias vão tendo despacho e consumo.

Estão no caso das feias, as velhas.

Não me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho sustentar que um homem deva casar-se com a sé de Braga.

Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu, na minha obscuridade, acho que é essa uma boa conta para ponto de partida.