Entretanto o irmão do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:

—Esta noite estarás em Santa Apolonia á chegada do comboio. N'uma carruagem, que segundo o costume será de primeira classe, hade vir o sr. Felix Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja. Se tomar um trem, toma tu outro. Deve apeiar-se á porta do Hotel Alliance. Ahi, logo que chegue ou pouco depois, dará ordem ao criado para que lhe vá buscar ao guarda-roupa do[{166}] Cruz, na rua Larga de S. Roque, um dominó preto. Esperarás os acontecimentos parado em frente do hotel. Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem de dominó preto. Esse homem será o sr. Felix Telles. Logo que elle saia, tomar-lhe-has dianteira, correrás ao theatro da Trindade. Encostados á casa do bengaleiro estarão os meninos e, quando o sr. Felix Telles entrar, dir-lhes-has: É este. Entendeste:

—Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex.ª certo de que saberei dar conta do recado.

—Muito bem.

No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de papel branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: «Sou o Felix Telles de Estarreja.» E riam estrepitosamente, com aquelle grande bom humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos passam...

O criado do visconde desempenhou-se da sua missão de confiança ás mil maravilhas.

Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando já os filhos do visconde, postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe nas costas a grande tira de papel branco.

Esta operação, aliás difficil, foi feita com perfeita delicadeza.

As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa gargalhada, que Felix[{167}] Telles não percebeu. E logo muitas vozes, umas accentuadamente masculinas, outras feminilmente esganiçadas, começaram a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto o dominó preto passava:

—Olha o Felix Telles de Estarreja!