Realmente, é para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo masculino, que de responsabilidades andam ligadas ao simples facto de pôr e tirar o chapeu!...
Custa pouco isso, tiral-o ou pôl-o, coisa é que se faz n'um momento, e comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pôr o chapeu quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pôr.[{172}]
Não é so no theatro, durante os espectaculos, que pôr ou tirar o chapeu é um facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no theatro, visto que se está entre uma sociedade menos numerosa, dá isso mais nas vistas, e se um espectador conserva o chapeu na cabeça, depois do panno subir, todos os outros começam a gritar: Peu! peu! Se o tira, mas parece reconsiderar tornando a pol-o, como que tem isso o proposito de querer irritar os outros espectadores, e então sobe de ponto a gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.
Ha já muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um camarote de segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas, bem comidos e bem bebidos,—bem bebidos, sobretudo.
Não se lembraram ou não quizeram tirar o chapeu, e o publico indignou-se, começou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se descobrissem.
Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos, então jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartição no ministerio das obras publicas,—o pobre Moita que tão desgraçado morreu!
Pareceu-lhe boa occasião de tirar partido do conflicto, e foi bater á porta do camarote dos patuscos.
—Quem é? perguntaram de dentro.[{173}]
—A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.
Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um representante da lei, exclamou: