—Isto que se está passando é uma pouca vergonha! Pagaram ou não pagaram os senhores o seu camarote?
—Pagamos, sim, senhor.
—Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que não offendam a moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabeça como não ter. Isso não offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade é proteger os direitos de cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.
Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabeça e despiram os casacos.
Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da platéa e dos outro camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira auctoridade teve de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, não podendo dizer ao certo se a embriaguez lhes haveria feito vêr a auctoridade em duplicado ou se neste paiz tudo andava tão fóra dos eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar pôr o chapeu, outra para o mandar tirar...
N'alguns espectaculos tem acontecido que o[{174}] publico se arroga o direito de mandar pôr ou tirar o chapeu, sem se importar com a intervenção das auctoridades, e sem que mesmo as auctoridades se atrevam a intervir.
N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O publico, logo que elle entrou, começou a gritar-lhe em côro:
—Que quite el sombrero!
O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto começou o publico a gritar, sempre em côro:
—Que ponga el sombrero!