E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitação, teve que pôr o chapeu, para depois o tornar a tirar, para ter que o pôr outra vez e para ter que tiral-o de novo...
Na rua ha maior liberdade de acção, o facto de pôr ou tirar o chapeu escapa ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade de acção, ha maior responsabilidade no facto em relação á pessoa a quem é dirigido.
Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou na cabeça, ficaram separadas moralmente duas pessoas.
Tirar o chapeu fóra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos, póde ter consequencias analogas, como se tome esse acto por troça,[{175}] por baixesa de caracter ou por desconsideração.
Tiral-o á mesma pessoa umas vezes, e não o tirar outras vezes, é caso para a pessoa, que umas vezes é cumprimentada e outras não, pensar no que deve fazer.
Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, ámanhã não, se me cumprimenta aqui e não me cumprimenta acolá, porque está acompanhada de melhor ou de peior sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo, que me diverte proporcionando-me occasião de trautear esta popularissima trova:
Quando eu quiz, não quizeste,
Tiveste opinião;
Agora queres, não quero,
Tenho minha presumpção.
O chapeu impõe deveres de normal cortezia, a que é preciso attender sem exagero para mais ou para menos.
Nada ha tão aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu póde incorrer estando fóra da cabeça quando devia conservar-se no seu logar. Um estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de chapeu na mão por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de desespero:—«Muito me incommoda a gratidão!»[{176}]
Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes: