... e de Lisboa se sêa
Que todos lá são honrados,
Que de pessoa a pessoa
Se fallam desbarretados.

Mas Francisco Manuel de Mello poz á cortezia dos lisboetas seus justos limites quando disse:

Um fallar com tanto geito,
Um ditinho de repente.
Que affeiçôa:
Um ter em tudo respeito,
Ai! mate-me Deus com a gente
De Lisboa.

Ter em tudo respeito,—eis a questão. É como se dissesse: ter conta em tudo. Respeito por os outros e por nós mesmos, até no cumprimentar!

Ha pessoas que caem no defeito contrario áquelle, e que em vez e gastar a aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam. É pouco. Se um só dedo podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sábia natureza não nos haveria dado cinco dedos em cada mão.

Quando a gente, não sendo militar, se vê cumprimentada d'esse modo, dá-lhe vontade de responder ao dedo com o braço todo,—para se mostrar generosa![{177}]

O presidente de não sei que estado americano, passeiava um dia na praça publica, vestido á paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.

Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou que elle cumprimentára de mais para um escravo. Voltou-se e disse:

—Não quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que eu!

Isto percebe-se, e é logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, não é cumprimentar, é vexar, porque se lembra á pessoa cumprimentada a sua inferioridade.