Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar sómente meia dóse de cumprimento:—é exigir que lhe dispensem dóse dobrada.
Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mão as pessoas que lhe fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem repugnou vêr outro desbarretado deante do fidalgo, que o não mandava cobrir. Chegou ao pé dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto, e disse-lhe:
—Póde pôr o chapeu na cabeça, que este senhor dá licença.
Se algum dos dois devia agradecer não era o desbarretado, mas o fidalgo, porque estava fazendo peior figura...[{178}]
Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.
Chega a gente a sentir-se enjoada de vêr um sujeito que cumprimenta a torto e a direito para dentro de todos os trens que passam—ha n'isto verdadeiros especialistas—e que se agarra a um cabello para ter o pretexto de se tornar snob dos machuchos.
Mas não enjôa por certo menos vêr outros sujeitos que põem todo o seu orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu é a continuação do firmamento.
Acima d'elles, só Deus, e ás vezes nem Deus... que não conhecem!
De tudo quanto completa a toilette do homem é com certeza o chapeu o que lhe impõe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta mais dos outros homens, o que o póde definir melhor na sua individualidade moral, o que o póde tornar mais estimavel e o que tambem o póde comprometter mais.
E tudo isto por que?