Os rapazes davam-lhe razão, não só porque n'essas occasiões o padre-mestre os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles proprios não tinham grande convicção na tal historia dos antipodas, gente que devia viver pendurada pelos pés, em permanente gymnastica.
Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente pessoa, um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e dos preceitos da Bulla da Santa Cruzada.
Ás sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes já contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.
Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher á tenda nas quintas-feiras de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do capote. Dava-o a vêr á criada.
—Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!
—Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pôl-o a dessalgar no poço.
Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poço até ao meio dia seguinte.[{184}]
Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhões se encontrava n'esses dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o eterno thema, a eterna teima dos antipodas.
—Que não! que não podiam existir! exclamava decisivamente o padre-mestre.
Não havia argumento convincente que o Liborio não empregasse; mas o padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questão dizendo: