—Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira é que tenho ámanhã bacalhau para o jantar; a segunda é que essa tal historia dos antipodas não tem pés nem cabeça.

Ora succedia que na sexta-feira pela manhã, quando a Gertrudes ia tirar o bacalhau do poço, o encontrava sempre reduzido a menos de metade; estava ratado, comido.

O que seria, o que não seria?!

—É gato que desce pela corda, alvitrava o padre.

—Isto não é dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.

E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que não podia ser gato de casa, porque o não tinham, e não podia ser gato de fóra, porque os muros do quintal eram muito altos, e estavam eriçados de cacos de garrafa.

—Será elle rato de agua, ó Gertrudes?![{185}]

—Nada, sr. padre-mestre, isto menos póde ser dente de rato.

—Olha, dente de coelho é que é com toda a certeza, porque por mais que a gente puxe pelo miôlo não sabemos o que seja!

A Gertrudes achava mais uma vez graça a este dito do padre-mestre, sempre repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau do poço, encontrava-o roido em metade.