Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau e, graças a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.
Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam pé-ante-pé ao quintal, e, içando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.
Se lhes dessem uma ceia de foie-gras talvez não gostassem tanto. O bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que servia de aperitivo a chalaça de o irem buscar ao poço com o sobresalto de ratoneiros que temem ser presentidos.
Padre-mestre dava em doido, o caso já o ia intrigando tanto como a historia dos antipodas.
Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim, e contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.[{186}]
—O que será? perguntou candidamente o padre-mestre.
—Ao certo não sei, respondeu o estudante. Mas talvez...
—Talvez?
—Pode muito bem ser que o comam os antipodas.
—Lá vens tu com a fabula dos antipodas! Não creias n'isso, rapaz!