Discutiram, investigaram, até que um cantoneiro lhes disse:
—Essa pedra foi mandada ahi pôr ha muitos annos pela senhora camara municipal.
Ficaram de cara á banda, os sabios.
A mim, a respeito da vinha, não me ha de acontecer outro tanto. Tiro o meu chapeu á[{194}] antiguidade da cepa, e passo adeante. Mas como as uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisação em que nos encontramos hoje, é o melhor que temos a fazer.
Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se são brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o desespero dos pintores.
Só um soube até hoje igualar-se ao Creador na reprodacção das uvas. Foi Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma tão perfeita similhança, vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz pintar uma tela ainda melhor. No seu quadro havia um cortinado que enganou o proprio Zeuxis.
—Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa observar a tela.
Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: «Eu enganei os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!»
A vinha póde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte do paiz, de enforcado lhe chamam; ou pequena e redonda como nas provincias do sul: mas as uvas são sempre bellas na lucidez e variedade dos tons.
É notavel que Camões, tendo vivido na Estremadura, se é que n'esta mesma provincia não nasceu, descrevesse na ilha dos Amores, não a vinha do sul, mas a de enforcado, a alta e pendurada, que vegeta no norte:[{195}]