Entre os braços do ulmeiro está a jucunda
Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.

Frei Luiz de Sousa, na descripção da cêrca de Bemfica, serviu-se de uma feliz comparação com as pedras preciosas para caracterisar as nuances da coloração dos cachos. Faziam, diz elle, «collares de pedraria as uvas, segundo os tempos, e as côres d'ellas: já topasios, já rubis, primeiro esmeraldas.»

Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas estão verdes quando a rapoza lhes não póde chegar. É uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da rapoza e das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se não póde alcançar.

—Ser ministro! diz um pretendente á pasta. Que massada!

E do lado algum malicioso observa a meia voz:

—Estão verdes, não prestam...

Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que só por ahi resta algum cacho guardado como um mimo.

Perdem-se no ar, por esse paiz fóra, as ultimas canções das vindimas. No Douro, a região do vinho, a vindima é ainda uma festa, apesar da phylloxera. Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razão para isso, porque a vindima representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a vindima corre triste e silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das uvas.[{196}]

Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasça entre canções ou sem ellas. O que se quer é que alegre e aqueça... no inverno;—porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.[{197}]

XXIII