O seu chinó, sempre tão fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que a pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais moço cada vez que S. Carlos abria, não obstante ser mais velho um anno.

E, depois de certa idade, nada ha que envelheça tanto como cada anno que vae passando...

Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e tambem raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.

Parecia um pouco cansado do mundo: entrára no periodo em que a gente vive principalmente de recordações.

O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes, visitava todas as damas, e apenas saía de S. Carlos... quando os outros saíam.

Tinha razão, porque elle ia lá não só para ouvir as operas, como tambem, para ver os outros.

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José Carlos de Freitas Jacome alternára uma grande parte da sua vida em occupações que profundamente contrastavam uma com outra:[{200}] a prosa dos tribunaes e a poesia da opera. De per meio, e de passagem, plantára o seu loureirosinho no jardim das Musas, era escrivão do civel na Boa Hora, dilettante em S. Carlos, e poeta por desfastio nas horas em que da prosa dos autos ascendia á região da harmonia. Fôra bastante escriptor para não ser unicamente escrivão, e, fóra da Boa Hora, esquecia-se de ser escrivão, para ter as predilecções e as honras de escriptor.

Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa. Nunca perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante, os seus habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque mal se chega a comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem em vida na solidão da misantropia.

Duas coisas lhe não esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flôr.