Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a lapella da casaca.
E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jámais lhe esqueceram as luvas, que ás vezes não calçava, mas que não abandonava nunca.
Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar de um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em[{201}] Portugal, fôra romantico de convicção e, como tal, adorava a musica italiana, saboreava-a, a goles de audição, como se fosse um licor esquisito, divino.
Verdi servia-lhe á phantasia uma especie de champagne capitoso, que o embriagava docemente.
Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taça do prazer de um tokay generoso, unico.
E, de resto, tinha rasão, porque ainda não houve quem lhes podesse apagar os nomes na grande téla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora boreal, Mozart, uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos os palcos do mundo, mas, sem embargo, as partituras italianas hão de illuminar-se sempre d'esse doce luar de sentimentalismo, que faz a delicia do coração.
N'essa atmosphera fôra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos, da musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo de Garrett no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros. Não podia nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto, mas, no que podia ser assimilavel, imitou-o. Não podia medir-se litterariamente com Castilho, mas versejou a exemplo d'elle em honra das divas do Olympo lyrico, porque Castilho, com ser cego, glorificou[{202}] na lyra o feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga. Admirador de Herculano, uma das tres entidades gloriosas da trimurti romantica, não o imitou nos processos de vida rustica e meditativa: para solitario não tinha geito Freitas Jacome.
Faz-me pena vêr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle é e que, já combalido pela doença e desalentado pela velhice, poz o seu chapeu, pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que não ousou atacal-o de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.
Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molière morreu em plena scena, n'um esforço de coragem.
Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo passeio de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida exterior attraira-o. Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu jantar d'aquelle dia, saiu, recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o ruido da grande cidade, que fremia em torno d'elle.