XXIV

Comer a dois carrilhos

Numa villa do Alemtejo, cujo nome não vem para o caso, havia um tendeiro rico e avarento, que nem de verão nem de inverno se lembrava de atirar uma migalha aos mendigos que lhe batiam á porta.

Um engeitado, um pária, um rapazote do sitio, tão pobre como ladino, matutou na injustiça da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote de camellão para se resguardar do frio, ao passo que só lhe dava a elle o frio sem o capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das coisas.

—Uma esmolinha, tio Ambrosio, pelo amor de Deus... Está tanto frio! dizia elle, tiritante, roçando-se pela hombreira da porta do tendeiro.[{208}]

—Sai-te d'aqui, maroto, que não quero espantalhos á porta, resmoneava de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.

—Não posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!

—Que te leve o diabo e mais o frio.

No dia seguinte, o rapazito voltava. E, á força de teimar, o engeitado ia conseguindo poder demorar-se mais tempo á porta do tendeiro sem que o enxotasse já com tanta dureza.

De uma vez o Ambrosio precisou um recado.