—Olha lá, disse elle ao mendigo, já que não tens que fazer, vae-me ali chamar o José da Azenha.

E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo que o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camellão, ficou sentado ao balcão da loja, olhando vagamente para os seus dominios.

Ao outro dia o rapaz voltou.

Tio Ambrosio, disse elle da porta, vocemecê não quer hoje algum mandado?

O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graça ás pessoas ricas. Em vez de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz vinha pedir que lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preço.

—Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me[{209}] chamar o Joaquim da Rita, que preciso fallar-lhe por causa d'uma coisa.

Essa coisa, eram uns juros em atraso.

E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o tendeiro, embuçando-se melhor no seu farto capote, disse lá comsigo que sempre estava muito frio.

O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde então o mais diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que tocava a soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle não pedia. Mas fôra a pouco e pouco captando a sympathia e a confiança do tendeiro, que primeiro o deixou sentar á porta, e depois n'um banco dentro da loja.

Nos dias de mercado, em que havia maior labutação no estabelecimento, o Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender á argola as cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as cascas dos ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balcão e lavar os copos... uma joia, uma verdadeira joia... a sêco!...